o que vi, o que achei #1 – The Box

Imagine: Você está passando por uma crise financeira. Um estranho bate à sua porta, e parte sem que você tenha a chance de falar com ele, deixando para trás uma única coisa: uma caixa. Dentro dessa caixa, há outra caixa; esta, por sua vez, tem um único botão. As instruções que vêm junto com a caixa dizem que tudo será esclarecido no mesmo dia, às 5 da tarde. Chegam as 5 da tarde. O homem que deixou a caixa se apresenta, educado, sério, e explica o ocorrido: a caixa tem um propósito. Aperte o botão, e você ganhará 1 milhão de dólares. Porém, a consequência da causa: uma pessoa, em algum lugar, que você sequer conhece, morrerá. O que você faz?

Essa é a premissa de The Box, thriller psicológico do diretor Richard Kelly, conhecido por Donnie Darko. Aparentemente um jogo entre razão e necessidade, e o que realmente é necessário, e o que estamos dispostos a fazer para obtê-lo. Ao mesmo tempo que é intrigante é óbvio: nós humanos não estaríamos dispostos a fazer de tudo por dinheiro? Ou não?

Para manter a dúvida, o diretor nos apresenta a família Lewis. Classe média, instruída, com trabalhos dignos – a esposa é professora, o marido trabalha na NASA e almeja ser astronauta. Mas… como uma família com um fundo desses passa por apuros financeiros? Talvez o diretor tente explicar isso ao nos jogar na américa dos anos 70. Será que essas profissões valiam menos naquela época? Será que o diretor achou que as roupas eram mais atraentes?

Uma série de “por ques” segue ao longo do filme, que tinha tudo para ser direto.

Por alguma razão, que é explicada porém não justificada, a senhora Lewis possui uma deficiência proveniente de um acidente, e ela manca e não tem nenhum dos dedos de um pé. Talvez para causar uma simpatia por parte da audiência, talvez para que ela mereça, coitadinha, matar alguém para ter um milhão de dólares.

Por alguma razão, personagens são inseridosao longo do filme, possuem uma ou duas falas, e partem, sem maiores detalhes. É o caso de um dos alunos da Sra. Lewis, que a humilha perante sua sala ao fazê-la tirar o sapato e mostrar sua fraqueza – o que ela permite, sem nenhuma objeção. Ele a persegue com os olhos, a atormenta e a seu marido psicologicamente, e de repente – some, e nunca mais se ouve falar dele.

Por alguma razão, o casal que possui ótimos empregos e consegue gastar uma fortuna imensurável em um Porsche, cai na dúvida se deve matar uma pessoa para conseguir dinheiro e manter o nível de vida atual e suas regalias ou não.

Por alguma razão, nos é forçado praticamente “guela abaixo”, uma série de explicações sobre a origem do misterioso detentor do botão, que envolvem possessão de corpos, invasão alienígena, viagens através do tempo e espaço, e uma perseguição aterradora de uma série de nerds dentro de uma biblioteca atrás do (muito mais preparado fisicamente) Sr. Lewis.

Aliás, a cena da perseguição, é, sem sombra de dúvidas, a mais intrigante do filme. Ela não adiciona em absolutamente nada, e você se pergunta por que, em nome de qualquer entidade alienígena de filme sci-fi superior, o diretor resolveu jogar uma série de efeitos especiais desnecessários na tela. Por que, sr. Kelly? Por que esse filme é tão longo?

Uma hora e meia de filme depois, somos forçados a tentar lembrar “sobre o que é esse filme mesmo?” A questão moral é praticamente esquecida, e só é lembrada nos últimos dez minutos do filme, e de uma forma tão impactante que praticamente rende essa uma hora e meia que você acabou de assistir à inutilidade. O botão é, e sempre foi, o ponto mais importante do filme. Todo e qualquer outro acontecimento posterior foi uma tentativa inútil de sobrevivência. Então por que esse filme é tão longo?

Na verdade, não existe explicação convincente do diretor que possa responder a essa pergunta. O conto original “Button, Button”, de Richard Matheson, já foi previamente adaptado às telas na série clássica The Twilight Zone, ou Além da Imaginação, em 1986. Eu assisti ao episódio. Ele possui 20 minutos, e conta exatamente tudo que precisa contar.

Quando os créditos começam a rolar, é quase possível enxergar uns homenzinhos pequeninos esfregando as mãos enquanto falam “Hihi, humanos tolos e gananciosos, vocês são tão previsíveis”. A dúvida moral, que deveria ser a maior questão do filme, se resume a uma discussão do casal que dura mais ou menos uns 10 minutos. Todo o resto é uma tentativa desesperada do diretor de parecer intelectual, visionário e crítico. Ele não faz pensar, ele deixa a audiência aos bocejos.

Eu não assisti a Donnie Darko ou a Southland Tales – os outros filmes de Kelly parecem ser os extremos entre obra prima e desastre. O que posso dizer de The Box é que são os 115 minutos mais mal empregados que já vi.

E que usar a trilha sonora de Jogos Mortais no trailer é uma ofensa imperdoável.

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